Prefácio
Sempre
procurei uma forma de entender de fato o que é a vida, esse bem abstrato ao
qual nos apegamos tanto. Se pude chegar a uma conclusão, certamente é a de que
a vida é como uma imensa tela de pintura... Quando nascemos, esta tela está
totalmente branca, e oferece infinitas possibilidades para nossos inábeis, mas
ansiosos pinceis. Conforme o tempo passa, nossas pinceladas se tornam mais
concretas, as cores e os efeitos se tornam mais nítidos, e a obra de nossa vida
começa a tomar forma. Rabiscamos com tintas escuras os nossos erros, imaginando
como ocultá-los dos olhos observadores de outrem.
De repente, paramos para admirar nossa
criação, e percebemos que já pintamos muito da nossa tela, o suficiente para
não podermos voltar atrás... E então passamos a procurar desesperadamente pelos
espaços em branco, preenchendo-os com a mesma ansiedade com a qual tememos
chegar ao fim da obra...
Neste texto,
procuro registrar a minha pintura, a obra que construí ao longo de anos de
aventuras no reino de Rune-Midgard. Cada palavra aqui é um traço da obra maior,
cada descrição mostra as cores e a textura com as quais gravei minhas memórias.
Espero que este registro seja de alguma utilidade no futuro, nas mãos dos
ávidos por entenderem as aventuras e a vida que levamos nós, os aventureiros,
na época de ouro, tesouros e emoção que viveu essa maravilhosa terra, em sua mais
gloriosa época.
Capitulo 1 – Novos Ventos do Velho Mar
- Certamente!
– respondi àquele marinheiro sujo, e aparentemente muito cansado, que convidava
os viajantes a deixarem o barco. Após muitos dias de viagem pelo mar inquieto,
eu finalmente chegara à Rune-Midgard, a terra de aventuras prometida a mim por
cada uma das histórias contadas pelos bardos de minha terra natal. Ao pisar no
cais, em solo firme finalmente, pedi silenciosamente que esta nova terra, tão
cheia de possibilidades, me acolhesse como um de seus aventureiros, na minha
busca pessoal por explicações, respostas, e obviamente, emoção.
Terminando
minha curta prece, subi os muitos degraus de madeira incrustados na pedra, e
foi ao terminá-los que pude ter uma primeira noção da grandiosidade desta
Rune-Midgard, não mais a cantada pelos bardos, mas sim a que agora pude
vislumbrar com meus próprios olhos: uma terra tingida pelo verde brilhante da
grama, com algumas árvores às voltas de uma rústica estrada. O sol, em seu
espetáculo diário, dava ao verde uma luminosidade bucólica, e o som do mar,
cada vez mais distante, permeava a quietude do ambiente com uma música
preguiçosa.
Esta
maravilhosa primeira imagem de Rune-Midgard teria sido a imagem mais marcante
deste dia de descobertas, não estivesse repousando, ao longe, um majestoso
castelo! Seus muros de pedra, já marcados pelo tempo, rapidamente me lembraram
que o predominante nesta terra não seria o bucolismo de suas paisagens, mas sim
a aventura que me aguardava.
Embora minhas
pernas ainda estranhassem o solo firme, corri todo o caminho que me separava do
castelo, ansioso por devorar ainda mais da novidade que esta terra começara a
me oferecer. Diante de suas enormes portas, entretanto, hesitei, vítima de uma
insegurança repentina. Era um forasteiro, e além de tudo, um aprendiz, sem
profissão ou utilidade. Será que me aceitariam neste imponente castelo?
- Vai ficar
muito tempo aí parado? – Uma voz feminina me tirou do torpor com um susto.
Olhei para trás e vi esta mulher em armadura, segurando uma enorme lança.
- Sou um
forasteiro, e conheço pouco desta terra. Talvez você pudesse me informar...
- Entre logo,
– rugiu a mulher – lá dentro você será instruído sobre como proceder. E boa
sorte.
Despedi-me da
mulher, ainda meio entorpecido em razão de sua inesperada aparição, e
finalmente entrei no hall do castelo, deixando a pesada porta se fechar atrás
de mim. Meus olhos demoraram a se adaptar à relativa escuridão do local,
iluminado apenas por uns poucos candelabros pendurados no teto alto. Avistei,
ainda assim, uma enorme mesa de madeira, localizada no centro do enorme hall,
iluminada por seu próprio, embora pequeno, candelabro. Junto a esta mesa, um
homem parecia atarefado rabiscando seus papéis, mas parou quando me aproximei.
- Bom dia,
caro aprendiz. Recebi informação que este último navio trazia mais um jovem
para Rune-Midgard, por isso tomei a dianteira e me preparei para sua chegada.
Seu equipamento está nesta bolsa, ao lado da mesa; pode pega-lo e se dirigir
para o treinamento.
Meus olhos
desviaram-se para o local referido pelo homem. Havia de fato uma bolsa ali, e
dentro dela havia vestes, uma adaga e um escudo. Voltei a fitá-lo, e sem
levantar os olhos de seu papel ele resmungou mais algumas palavras:
- Ande logo.
Saia pela porta à minha esquerda, lá você poderá se trocar e começar seu
treinamento. Boa sorte.
O homem voltou
então aos papéis, e sua pena voltou a escrever furiosamente. Esbocei um
agradecimento, peguei a pesada bolsa com as mãos e, jogando-a às costas, parti para
o local indicado por ele. As pessoas deste castelo certamente sabiam como ir
direto ao ponto. Em todo caso, eu agora me sentia mais confiante, e fiz o
trajeto com passos firmes, decidido a fazer-me um aventureiro de fato, e o mais
depressa possível.